Você talvez já tenha ouvido falar desses jogos: Braid, But That Was Yesterday, Passage, Feist, Trauma, Limbo… São títulos que denotam sentimentos como depressão, a tristeza, o terror, o medo… Outros exemplos: Rez (foto), The Boom Shakalaka, Bit. Trip Beat, Osmos… São títulos que se inspiram na pintura abstrata, na falta de sentido, no subjetivo. São os ditos “art games”, jogos eletrônicos que jogam na cara da sociedade que games são sim, arte, oras! Que profundo, inteligente e moderninho!
Seria, não fosse pela fraca ideologia que os sustenta. Chamar tais obras de “art games” denota uma certa arrogância e redundância. Afinal, todo game É arte. O que essa denominação escancara, na minha opinião, é uma aceitação geral por parte da sociedade de que videogames não são arte, ainda que os autores dessas obras tentem provar o contrário ou sejam usadas por outros com esse propósito. A impressão que fica é que, para se mostrar como arte, qualquer produção cultural precisaria renegar suas origens (nesse caso, os jogos) e se aproximar de outras artes mais bem aceitas, como a pintura ou o cinema.
Muitos discordam, considerando nenhum jogo arte, ou que são raros os que podem ser chamados assim, já que “poucos games emocionam como muitas músicas ou filmes”. Ou seja, a julgar pelos ditos “art games” e por argumentos como esses, arte só é aquilo que faz você chorar ou não entender. Se você entendeu, se divertiu ou até odiou um filme, livro ou game, então ele não pode ser chamado de arte? Eu discordo com veemência. Na minha opinião,é possível que até o mais simples jogo seja admirado como uma produção cultural. Sim, até mesmo o xadrez ou o futebol. Alguns desses jogos conseguem ser bastante profundos simbologicamente, outros são bem rasos. Mas estão todos dentro de uma cultura transparecendo um contexto social e pessoal. É impossível escapar disso.
Entendo que, levando isso em consideração, qualquer ação provocada pelo homem poderia ser categorizada como arte. Mas é esse ponto ao qual quero chegar: tudo que a humanidade produz é arte, ou melhor, pode ser categorizada como tal. O que muda é nossa forma de encará-las, é a diferença do olhar entre pessoas ou sociedades diferentes. O que é arte para mim, pode não ser para você. Há quem adore pinturas abstratas. Eu abomino e acho pedante. Mas ela, provavelmente, tenta transmitir alguma mensagem, e para alguns aquilo deve trazer um significado. É esse olhar que eu gostaria de ver sendo percebido nos games por jogadores, desenvolvedores e até jornalistas.

Para entender melhor, faço uma comparação com outras artes. Você consegue imaginar ou entender um grupo teatral que ouse chamar um novo tipo de montagem de “teatro arte”? Ou um pintor que venha a denominar seu novo estilo de “pintura arte? Bastante arrogante e redundante, não? Não estou afirmando aqui que todos os desenvolvedores dos ditos “games arte” defendam ideias como essas, ou categorizem suas criações como tal. Isso só eles podem confirmar ou negar. Mas lembro aqui que Jason Rohrer, designer por trás do ótimo Passage (foto acima), já teria declarado em entrevista ao jornal O Globo este ano que “não acredita que os grandes blockbusters do videogame são uma forma de arte”.
Quem estudou análise do discurso ou linguística, o que só fiz superficialmente, sabe que, por trás de todo texto, toda palavra, há um contexto, uma ideia subentendida. É o discurso por trás do termo “art game” que quis realçar aqui. Não importa que você use essa expressão inocentemente, ou acredite que tudo não passe de palavras que designam um gênero de jogo. Existe um discurso anterior a palavra que você reforça ao repetí-la.
Concordo que ainda existem poucos jogos eletrônicos que conseguem ser profundos e nos tocar significamente. É compreensível, afinal, os videogames ainda são uma arte muito nova, que não tem sequer 50 anos de existência, se desconsiderarmos algumas criações à frente de seu tempo. A sociedade ainda não aprendeu a enxergar os videogames como arte. É uma situação que eu acredito que mudará no futuro. Quanto tempo levará, eu não sei. Mas enquanto termos como “art games” ficarem sendo repetidos sem nenhuma reflexão por trás, acredito que esse dia ainda não terá chegado.

